
Brigas em restaurantes, temperamento forte e explosivo, passagens pela polícia, arremesso de telefone contra funcionários de hotel e traições conjugais fazem parte da conturbada vida do ator neozelandês naturalizado australiano Russell Crowe. Apesar de sua fama nada atraente, o ator é constantemente recrutado para dar vida aos papéis mais dóceis e amáveis que o cinema pode dispor, e sua filmografia já conta com uma extensa lista de personagens imaculados.
Desde seu primeiro grande sucesso de público, “Gladiador”, de 2000, Crowe dá mostras de que seu jeito marrento não é suficiente para diminuir sua propensão para tipos dóceis. Dirigido por Ridley Scott, o ator viveu um herói perseguido pelo próprio irmão (o ex-rapper Joaquin Phoenix), que divide seu tempo entre batalhas épicas no Coliseu romano e lembranças de sua família destruída. Com uma caracterização digna de beatificação, Maximus é o exemplar perfeito de força de vontade, determinação e amor familiar.
Depois, em parceria com o cineasta Ron Howard (O Código da Vinci, Anjos e Demônios), Crowe deu vida ao matemático atormentado John Nash, Nobel de Economia em 2004, que trabalhou na formulação dos conceitos da Geometria diferencial, Teoria dos jogos e Equação de derivadas parciais. Como uma criança assustada, o personagem de “Uma Mente Brilhante” passeia pela trama enquanto é constantemente acossado por suspeitas de esquizofrenia e crises de depressão. Estudioso dedicado e marido exemplar, Nash arrancou de Crowe toda uma passividade que o ator não demonstra todos os dias, e garantiu sua terceira indicação ao Oscar.
Os bons frutos da parceria e da completa estilização de Crowe renderam um novo filme em 2005, “A Luta pela Esperança”, sobre um famoso pugilista do início do século XX. Prejudicado pela Grande Depressão, durante a crise de 1929, o lutador enfrenta todas as limitações possíveis para continuar subindo ao ringue. Para sustentar esposa e filhos, o personagem se submete aos piores embates, mas mantém sempre sua posição infalível de último exemplar ético entre os colegas de profissão e desempregados da América.
Seu último lançamento, “Robin Hood”, em cartaz nos cinemas brasileiros, marca o retorno de Crowe ao mundo épico de Ridley Scott e, como era de se esperar, transforma o famoso ladrão inglês na personificação das mais procuradas virtudes humanas. O Robin Hood de Scott deixou para trás qualquer desvio de caráter, e por alguns momentos fez esquecer que aquele que dá vida ao personagem é mundialmente conhecido por seus vexames públicos e falta de paciência. Durante a projeção do filme, tão bem manipulado pelas mãos hábeis do diretor, esquecemos que estamos diante de uma guerra, sem vilões ou mocinhos, e apostamos toda a nossa torcida na vitória de Hood.
E o poder da sétima arte mais uma vez ultrapassa os limites da tela e atinge em cheio a realidade. Para o cinema, nada mais fácil que transformar vilões em mocinhos, bandidos em heróis, e reis do vexame em exemplares de boa conduta.



