Colocar Matheus Nachtergaele em uma posição privilegiada entre os atores da nova geração do cinema brasileiro é, sem dúvida, justo. Desde sua estréia em 1997, com o drama "Anahy de las Misiones", passando por grandes títulos da cinematografia nacional, como "O Que É Isso, Companheiro?" (1997), "Central do Brasil" (1998), "O Auto da Compadecida"(2000), "Cidade de Deus" (2002) e "Narradores de Javé" (2003), Nachtergaele recebeu importantes prêmios e consolidou sua carreira como uma das mais respeitadas dentro do mercado cinematográfico.
Em 2003, trabalhando com o pernambucano Cláudio Assis, e com um orçamento de 500 mil reais, Nachtergaele deu vida ao afeminado Dunga, e atuou em um filme que foi tratado por muitos como o mais cru retrato da classe suburbana brasileira. "Amarelo Manga" não abordou brigas de gangues e perseguições policiais pelas ruas vertiginosas das favelas, preferiu dar espaço para a representação da imobilidade social de uma classe cheia de aspirações frustradas. Cláudio Assis reuniu em 100 minutos de filme tudo o que há de mais grotesco e condenável nas ruas da periferia de Recife, e sua ousadia lhe rendeu uma infinidade de indicações e premiações em festivais brasileiros e internacionais.
Para Nachtergaele, "Amarelo Manga" fez mais do que oferecer um papel complexo e desafiador, e provavelmente também serviu de inspiração para a realização de um antigo projeto seu, imaginado durante as filmagens de "O Auto da Compadecida", no sertão paraibano. Cláudio Assis ainda ofereceu uma nova oportunidade para que o ator pudesse consolidar suas ideias e proporcionar ao público outra excepcional atuação, e lançou "Baixio das Bestas", em 2007, um retrato sombrio da miséria humana e da condição feminina na Zona da Mata pernambucana.
A semente estava plantada, e Nachtergaele teve a primeira oportunidade para demonstrar seu talento por trás das câmeras. Seu filme "A Festa da Menina Morta", lançado recentemente, é a prova irrefutável de que o cinema de Cláudio Assis continua rondando o seu imaginário. Com um elenco de peso, com nomes como Daniel de Oliveira, Jackson Antunes, Cássia Kiss e Dira Paes, o filme acompanha os preparativos para a Festa da Menina Morta, celebrada tradicionalmente em uma pequena cidade do interior amazonense. Santinho (Daniel de Oliveira) recebeu de um cachorro, há duas décadas, os restos do vestido de uma menina desaparecida, que todos os anos, em ocasião dos festejos, se manifesta através da boca do rapaz em transe.
Com um roteiro curioso, um time de atores competentes e o inegável talento de Nachtergaele, "A Festa da Menina Morta" já seria lançado com ares de obra prima. Mas logo que toda a ansiedade que envolvia sua apresentação se dissipa, o que mais chama atenção é a extrema crueza com tudo o que foi abordado. O cinema de Cláudio Assis está presente em cada sequência de A Festa, mas de uma maneira exageradamente bizarra. Nachtergaele não soube dosar o grotesco e colocá-lo como um apoio, uma complementação da narrativa, mas optou por protagonizá-lo e deixar tudo mais em segundo plano.
Personagens sujos, ambientes escuros e claustrofóbicos, comidas gordurosas, noções básicas de higiene deixadas de lado, animais sacrificados, grunhidos ensurdecedores, suor, sujeira. Tudo está excessiva e detalhadamente retratado no filme, que não oferece ao espectador um espaço para que possar digerir melhor o que acabou de ver. Somos apresentados ao homem pós-moderno que ainda vive em uma era pré-histórica, e isso não soa real. O personagem de Jackson Antunes mais parece um animal arredio, falando enquanto mastiga, deixando a comida escapar pelo meio da boca, e vivendo de maneira totalmente descompensada, como um verdadeiro troglodita. É possível imaginar o cheiro de tudo o que se vê, e não é algo agradável de respirar.
Quando sobra espaço e disposição para observar atentamente a atuação do núcleo protagonista, constatamos a qualidade do trabalho de seus atores, sobretudo Daniel de Oliveira, que no papel principal consegue transpor os limites entre sanidade e loucura de maneira magistral, e Cássia Kiss, que oferece aos espectadores toda a naturalidade de uma atuação minuciosamente estudada.
"A Festa da Menina Morta" funcionaria melhor como um documentário. A ambição de Nachtergaele por fazer um retrato naturalista dos costumes humanos acabou comprometendo um possível grande êxito como estreante na direção. A Festa não é um filme descartável, e certamente deve ser assistido. Sua história é curiosa, e seus minutos finais são realmente inquietantes. Igualmente curioso é o fato de alguém tão competente ter escorregado feio na primeira vez em que assumiu o controle de uma câmera.



