A violência já se transformou em um negócio bastante lucrativo. Mas, ao contrário do que você está pensando, não estou falando de seqüestros, assaltos, nem do tráfico de drogas. Refiro-me aos jornais policiais que pipocam em prensas e emissoras de rádio e televisão interessados em aumentar a audiência e os próprios ganhos. Sempre em estado de alerta, esses programas se alimentam da banalização e da urgência. Urgência em dar a notícia, em acusar, em condenar e em aterrorizar leitores e espectadores. Para eles não existem suspeitos, apenas culpados, não há ordem, só o caos, não tem saída senão a punição.
Como uma receita macabra para o sucesso, nos é servido um rodízio de tragédias, bizarrices e sensacionalismo, regados a sarcasmo e sangue fresco. Seus apresentadores atuam como verdadeiros chefs do mau gosto, sempre colocando mais lenha na fogueira enquanto nos cozinha em banho-maria, para acreditarmos que a realidade é mais feia e cruel do que realmente é. Mas, pensando bem, talvez seja mesmo.
Afinal, existe brutalidade maior que todos esses exageros e distorções que engolimos toda vez que assistimos á esses programas ou compramos tais impressos? Por incrível que pareça, há sim. A verdadeira violência, coletiva, pessoal, social, que nos cerca, nos entorpece e nos cega. Mas em contra partida une as pessoas, pois, em geral, somos todos vítimas e culpados desta situação indigesta. Como um ciclo vicioso, que se auto-alimenta de nossos medos, preconceitos, injustiças e, principalmente, de nossa indiferença.
Ao mesmo tempo em que somos obrigados a conviver passivamente com a insegurança das cidades, com os assaltos, tiroteios, seqüestros e todo tipo de agressão amplamente noticiada pela mídia. Também somos agentes ativos dessa violência impessoal e invisível para a maioria. Um bom exemplo é quando deixamos de contratar um ex-presidiário ou alguém cujo endereço comece com Beco ou Vila ao invés de Rua ou Avenida. Ou quando fechamos os olhos para a forma truculenta que a policia adentra em favela ou subúrbio, como todos fossem criminosos, mesmo , que na verdade, seja uma minoria envolvida em atividades iliciatas.
Há também a violências contra as crianças. Não! Não estou falado do “Caso Isabela Nardoni”. Refiro-me as dezenas de milhares de crianças que vagam pelas ruas de todo o Brasil; humilhadas, menosprezadas, agredidas. Vistas por nós, “cidadãos de bem”, como animais peçonhentos ou predadores. No caso delas, estamos sempre preparados para esconder as bolsas, as carteiras, a atravessar para o outro lado da rua por medo. Sonhamos com o dia em que elas nos respeitem, mesmo que nunca tenhamos feito o mesmo por elas.
Violências deste tipo jamais serão criticadas ou condenadas pelos apresentadores de um programa policial. Outra coisa que jamais veremos sair da boca destes tipos é a cobrança veemente por uma mudança de postura dos cidadãos. Eles nunca falarão que a solução para essa realidade deve vir, não só do poder público, mas também por ações sociais desenvolvidas por pessoas comuns como eu e você. Não estou falando em criar Ong´s, mas de criar vínculos com os diversos contextos sociais que nos cercam, através do respeito, da tolerância, da compreensão. Noções como essas, em momento algum farão parte desses programas, seria sincero demais, ético demais para eles.
Mas também não posso ser totalmente injusto. Ninguém é obrigado a consumir esse tipo de produto, basta comprar outro formato de jornal ou simplesmente trocar de canal, várias vezes é claro, para encontrarmos uma alternativa mais saudável para destinar nossa atenção. Mas como é irresistível o sabor das tragédias alheias; as chacinas e matanças que atinge apenas os outro. Nesse momento esquecemos das filas no qual nos arrastamos, da agonia da falta de atendimento do SUS, do desespero pela busca do primeiro emprego. Tudo isso é corriqueiro diante da dor que nos é servida por essas mídias. Às vezes até nos divertimos, com a entrevista cambaleante de algum motorista bêbado, após o atropelamento de alguns pedestres em um ponto de ônibus. É! Seria cômico senão fosse tão trágico.
É preciso abandonar a cômoda idéia de que somos vítimas inocentes da violência, que tudo é culpa da pobreza e da incompetência do Estado. A realidade demonstra que é justamente o oposto. Já que é nas áreas de maior concentração de capital, como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, que a violência mais cresce. Nem podemos esperar que o governo encontre uma idéia mirabolante para nos salvar. A solução só é possível através da união, da comunhão entre o Estado e a população. É muito comum encontrarmos história de pessoas que nasceram na pobreza, mas com muita luta e dedicação conquistaram sucesso profissional e econômico, mas são raras as vezes que essas mesmas pessoas se propões a ajudar a comunidade de onde vieram, disponibilizado cursos de informática ou de línguas ou mesmo com a doação de alguns livros para a eventual criação de uma biblioteca de bairro.
Somente com o engajamento social e o comprometimento de cada um de nós com o próximo, através de pequenas ações, porém continuas, é que podemos nos curar dessa imensa indigestão criada pelo descaso e indiferença. Quando finalmente desligarmos nossas televisões e voltarmos os olhos para todos em volta, sem medo, nem preconceito, mas com atenção é que vamos dar o primeiro passo rumo á paz e a inclusão.
Por: Bruno Zanette; Jornalista e Colaborador do site. Contato:
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