Friday, Sep 10th

Last update:12:50:05 AM GMT

Headlines:
You are here: Home Política Nacional Consciência Política: Sem ela não transformamos nossa vida

Consciência Política: Sem ela não transformamos nossa vida

E-mail Imprimir PDF

Os gregos antigos passaram à história como os fundadores da polis e da vida política, pois figuram entre os primeiros que sistematizaram as formas de relacionamento de pessoas e instituições no espaço público da cidade-estado.

A vida da cidade e do cidadão atingiu tal grau de entrelaçamento que o filósofo Aristóteles considerou a polis como produto natural, sendo o homem, por natureza, um animal político. Assim pensando, Aristóteles tomou um fenômeno da cultura grega como padrão natural para todo o gênero humano. No entanto, o próprio processo histórico grego demonstra esta construção cultural do homem político, que, sob diferentes variedades, nasce, cresce e também definha. Exemplo disto foi o período helenístico.

Com a conquista da Grécia pelos macedônios (322 a. C), percebemos que os antigos valores gregos sofreram transformações e mesclaram-se com outras tradições culturais. De vários modos, desfigurou-se a relação política entre cidadãos e cidades, marcada pela participação daqueles nos destinos desta. Neste contexto de declínio da vida política, cresceu o interesse pela vida privada, a intimidade, as "artes de viver". Um dos principais filósofos desta época, Epicuro, aconselhava que as pessoas se afastassem das atribulações sociais, dos conflitos políticos e buscassem paz e prazer na esfera privada. "Viva oculto" foi um de seus mandamentos; que se traduz em meta inalcançável, pois viver é expor-se: a chuvas e trovoadas, justiças e injustiças, conquistas e frustrações.

Esta ascensão e queda da política no mundo grego sugere reflexões sobre certas tendências encontradas nas sociedades atuais.

Durante boa parte dos séculos XIX e XX, a política empolgou as pessoas chegando a ser considerada aspecto fundamental da vida humana. Muitos historiadores e filósofos, inclusive, a elegeram como tema central de suas pesquisas e ensaios. Grandes pensadores expressaram-se sobre esta relevância da política e, dentre eles, Norberto Bobbio afirmava que "o poder político é, em toda sociedade de desiguais, o poder supremo, ou seja, o poder ao qual todos os demais estão de alguma forma subordinados." Com isso, sublinhava, por exemplo, que embora o poder econômico seja essencial para o mais rico subordinar o mais pobre, somente o poder político - instituindo a coerção social legalizada - serve, em casos extremos, para submeter socialmente as pessoas, fazendo-as obedecer à norma estabelecida.  Ainda que seja preciso continuar a política por meio da guerra - para aludir à frase de Karl Von Clausewitz.

Apesar dessas constatações, houve, nos últimos cinquenta anos, um desencanto político que se espalhou por grande legião de pessoas nas sociedades ocidentais. Desencanto movido pela decepção face aos partidos de diferentes espectros e dos governos que estes engendraram. Propagou-se entre muitos jovens um desprezo e um desinteresse a respeito dos rumos da cena pública.

Deixar a política de lado para cuidar da própria vida tornou-se tendência expressiva da mentalidade contemporânea. E é como reação a essa tendência individualista que enfatizamos a voz dos que proclamam a inseparabilidade da vida social e da vida pessoal. Em outras palavras, enfatizamos a necessidade fundamental da educação política.

Evidentemente, política não é apenas ocupar-se das ações dos governantes e seus detalhes personalistas. Relembrando Bertold Brecht, alfabetizar-se em política é adquirir consciência de coisas elementares da vida, como as causas do preço da comida, da roupa, da moradia, do remédio. É saber que não há sucesso profissional sem condições sociais de trabalho. Nem paz de espírito sem segurança social.

Enfim, consciência política é compreender que nossa existência está profundamente vinculada à das pessoas com quem convivemos; consiste, por exemplo, em procurar impedir, por meio do voto responsável, a eleição do político "ficha suja" - aquele que pretende nos fazer acreditar que o mundo é assim mesmo, cada um por si e pronto. Pois este político corrupto anseia que desprezemos a política para que ele continue nos roubando e degradando nossas vidas.

gilberto-cotrim-menor
Por: Gilberto Cotrim.
Professor de História graduado pela Universidade de São Paulo (USP). Advogado inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP). Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie. Cursou Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Autor de livros didáticos.