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Alergias - Entrevista com o Mestre Guilherme Cerutti Müller

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Mestre Guilherme Cerutti MüllerSegundo estudos internacionais, uma criança entre dez sofre de asma. No Brasil, ela ocupa o 4° lugar entre internações no Sistema Único de Saúde. Os casos de rinites alérgicas dobraram nos últimos anos e o motivo ao certo não se sabe. Alguns pesquisadores apostam na Teoria Higienista. Esta teoria culpa o exesso de higiene pelo aumento das alergias.

Em entrevista, o Coordenador e professor do curso de Biomedicina da UNOESC (Universidade do Oeste de Santa Catarina), Guilherme Cerutti Müller - Biomédico formado pela Feevale e Mestre em biologia celular  molecular - fala sobre alergias, a hipótese da higiene e os avanços científicos que estão acontecendo nessa área. Müller trabalhou durante o mestrado na asma pediatrica e publicará dois artigos no tema na revista científica Allergy em alguns meses.

 

Laís Scortegagna - Que fatores desencadeiam uma alergia?

Guilherme Cerutti Müller - Pode ser desencadeada por diferentes tipos de alérgicos. Podem ser fatores que estão no ar mesmo (poluição) até mesmo alimentos. Não apenas pelo constituinte do alimento. Pode ser leite, camarão, carne, mas também por substâncias aditivas. Que pode ser desde hormônios que são utilizados até substâncias utilizadas par manutenção, ou até pela falta da manutenção do alimento. Polem, poeira, acaros, pelos de animais...

 

L.S - Em todos os tipos de alergia o processo é o mesmo ou não?

G.C.M. - Pode variar.

 

L.S - E como alguém adquire uma alergia?

G.C.M. - Ai conta de uma resposta incorreta do organismo. Acredita-se que na infância ainda, quando o sistema imune está amadurecendo, aprendendo a responder contra os patógenos - sejam eles vírus, bactérias, parasitas - na falta de contato com eles, ou de um contato eficiente, [o organismo] pode começar a responder aleatóriamente contra  outras coisas que não necessariamente seriam patógenos. Ai no caso o mais comum é o pólen, ou ácaros, ou até pelos de animais. Mas também tem pessoas que desenvolvem alergia a algum tipo de alimento, alteração de temperatura.

É uma resposta anormal do sistema imune que pode ser aleatória ou genética também. É multifatorial. Então não é apenas na carga genética que permite que tu tenha uma maior predisposição à alergia, mas também um ambiente que vá te proporcionar isso. E o contrário também. Tu pode ter um ambiente que vá te proporcionar a ser alérgico mas se tu não tiver uma carga genética que te dê predisposição talvez tu tenha uma maior resistência contra a alergia.

Mas ainda não se sabe exatamente como funciona isso. E nem se sabe exatamente o que vai criar essa alergia.

 

L.S - O que diz a “teoria higienista”?

G.C.M. - Tem uma corrente de pesquisadores  e médicos que acreditam que a falta de exposição à sujeira, à bactérias, à vírus, na infância quando o sistema está amadurecendo faz com que o sistema imune ele comece a criar respsta contra fatores benignos. Que não causariam patologia nenhuma. E ai é de forma aleatória mesmo. E ai acredita-se que a exposição a esses patógenos no começo da infância já evitaria essa alergia. E é essa a explicação pela qual países de primeiro mundo tem um alto índice de pessoas alérgicas e em países de terceiro mundo - se for dividir entre classe média-alta e classe C, D, E - também se vê um maior índice de alergias nas classes mais altas. Exatamente por ter uma maior higiene.

 

L.S - Faz sentido.

G.C.M. - Agora, isso é uma teoria! Não tem ninguém recomendando que as crianças comam sujeira, comam terra...

Se algum fizer isso, se não for o House M.D., vai ser processado, certamente.

 

L.S - Apesar de que muitas crianças fazem isso por conta própria...

G.C.M. - É. Até, dentro dessa teoria acredita-se que seja algo evolutivo. Que desde os antepassados as crianças comiam terra, comiam sujeira exatamente pra criar um sistema imune mais eficiente. Agora, isso é tudo teoria. Eticamente não é possível que se faça isso na prática clínica.

 

L.S - A poluição, que já foi condenada como causadora, e hoje não é mais tanto. Ela tem alguma culpa?

G.C.M. - É relativo. Não dá pra dizer também que não é causadora, mas também não é a única vilã. Na verdade a poluição vai causar problemas respiratórios. Isso é fato. Agora, pra desencadear a alergia, ser responsável pelo começo da alergia, ai não dá pra considerar como culpada.

 

L.S - E pra pessoas com asma?

G.C.M. - Claro. Pessoas com asma já tem uma deficiência respiratória. Ai já vai colocar uma outra substância. O pó, o gás pra dentro do pulmão, dai com certeza aquilo vai reduzir ainda mais. E se essa pessoa tem alergia. Responder à poluição com uma resposta alérgica, ai o quadro pode ficar bem grave.

 

G.C.M. - Onde tu viu que a poluição não é mais considerada causadora?

 

L.S - Na revista SwissInfo. Foi uma pesquisa feita após a queda do muro de Berlim, que a poluição tava altíssima por causa dos resíduos de poeira do muro. E eles tavam esperando encontrar uma maior incidência de alergia justamente por isso. Mas o resultado foi justamente o contrário: "Os resultados mostraram que as crianças de Leipzig tinham menos problemas de alergia, pois elas eram mais expostas às concentrações de poluentes atmosféricos como o dióxido de azoto ou ozônio. Através da pesquisa, alergólogos afirmam atualmente que poluentes não são a origem dessas doenças."

G.C.M. - É, eles podem ter criado uma resistência. E pode ser um estudo isolado. Mas quem tava escrevendo essa matéria tava focando a hipótese da higiene. Então eles focaram naquilo tentando também desmistificar  o resto. E também, as pessoas que tiveram essa exposição foi naquele momento ali né. Eles podem não ter desenvolvido a alergia. Que se eles não eram alérgicos antes eles não vão criar essa alergia quando adultos.

 

L.S - Mas uma alergia pode ser desenvolvida em qualquer momento?

G.C.M. - Pode sim. Existem diferentes subtipos de alergia e que não se conhece exatamente os mecanismos por trás delas. Então além daquela alergia adquirida durante a infância, o indivíduo pode ser sensibilizado durante toda a vida por outro alérgeno, podendo depois de anos de exposição desenvolver a alergia.

 

L.S - Qual a diferença entre a asma e outras alergias?

G.C.M. - Por ser tão multifatorial ela é difícil de definir. Mas podemos dizer que é uma doença inflamatória que ocorre devido a uma desregulação da resposta imune no trato respiratório, caracterizada pela hiper-responsividade e pela limitação variável do fluxo aéreo, podendo ser reversível com ou sem tratamento.

 

L.S - A alimentação pode influir no adquirir uma alergia?

G.C.M. - É. Entra também na hipótese da higiene. Quando o sistema imune não tem aquela exposição a outros patógenos ele pode acabar respondendo a outros fatores aleatórios onde a alimentação se enquadraria.   Também fatores de higiene dentro da alimentação. Cada vez mais temos produtos industrializados com menos carga de bactérias contaminantes. Isso também pode reduzir a exposição e, talvez, facilitar essa alergia. Mas também. São hipóteses. Não é possível comprovar em humanos, mas a hipótese é interessante.

 

L.S - O que está sendo desenvolvido no meio científico?

 G.C.M. - Tem pessoas que falam em vacina contra alergia. Eu nunca vi na verdade.

O que, de novo, que está sendo feito é a IGE que é uma das classes de anticorpos que a gente tem. A IGE tem a função específica de atacar parasitas. Como antigamente nós tinhamos uma carga mais prevalente, e atualmente não é usado muito. Aquela IGE fica sem função. É um tipo de anticorpo específico que ataca parasitas, que também está bem aumentado na alergia. Então por isso que tem essa relação entre um e outro. E ai, o que está sendo feito (que é até curioso) é que indvíduos que são infectados por uma parasitose que são alérgicos, eles têm uma resposta mais branda da alergia ou não têm resposta alérgica. Mesmo com exposição ao alérgico que causaria a alergia. Porque estando com a carga parasitária a IGE está atacando o parasita e não o pólen, o alimento, o leite... Aquilo que te causaria alergia geralmente.

 

L.S - Então eles colocam o parasita no paciente?

G.C.M. - Ai está sendo feito já na África. Estão dando doses homeopáticas de parasitas intestinais. O paciente toma, só que assim, é uma quantidade que ficaria uma situação meio comensal né. Sem causar doença, mas sem se livrar dela. Ai a IGE vai estar atacando o parasita e não vai estar desencadeando a alergia.

Ai o que está sendo feito de pesquisa aqui no Brasil, que tem alguns grupos aqui que estão fazendo isso, é que estão tentando identificar o que dentro do parasita que ativa a IGE. Que dai ao invés de tu tomar o parasita todo tu vai tomar só aquela proteína específica que vai levar a reação. Que ai sim, quando descobrir exatamente o que causa dai será uma medicação preventiva. Mas ainda não existe.

O que causa essa demora também é que, como essas parasitoses são coisa de terceiro mundo não existe dinheiro pra pesquisar parasitas. Pesquisas contra vírus, bactérias correm bem rápido porque são feitas nos Estados Unidos, Europa... Enquanto nós aqui ficamos a míngua tentando buscar recursos pra fazer outros tipos de pesquisa pra coisas que aflingem a nossa região.  Ai agora, como os parasitas podem ser importantes pros problemas que causam problemas "lá em cima", no hemisfério norte, ai é que está começando a  se ter mais recurso. Em função deles. Mas ainda está engatinhando porque pesquisar proteína por proteína de um parasita pode levar anos, ou pode dar a sorte de acertar agora. 

Outra célula que é importante tanto na alergia como nas parasitóses são os Eosinófilos. É uma célula branca que se vê no hemograma. Ela ataca tanto as parasitoses quanto indivíduos alérgicos. Ambos vão mostrar uma taxa mais alta de eosinófilos no hemograma. 

 

Por Laís Scortegagna - Estudante de jornalismo da PUCRS e blogueira

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